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Tivemos a chance de nos encontrar com Claus Kruse, Steffen Gehring e Kazim Sarikaya à beira-mar, na Praia Grande, onde nos concederam uma entrevista muito agradável.
Entre outros assuntos, conversamos sobre como foi a experiência de vir tocar no Brasil, o contato com a cena em São Paulo e com os fãs brasileiros!

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Grupo Bella Noite: Esta é sua primeira vinda ao Brasil. Agora, depois do show, todo mundo quer saber o que vocês acharam.
Claus: Eu tenho que dizer que foi definitivamente inacreditável. (...) Todo mundo é tão amável e te abraça (risadas), é tão legal. (...) Na verdade, eu não sei como descrever, é muito especial.
Steffen: Eu fiquei bem surpreso por achar uma cena [alternativa] do outro lado do planeta, é incrível! Ter algo assim num ambiente totalmente diferente, é quente e tropical, outro modo de vida e condições de trabalho e vocês ouvem o mesmo tipo de som! (...)
Kazim: Não tenho o que adicionar a isso. Gostei muito e principalmente das pessoas, muito calorosas. O show foi ótimo, eu não esperava tanta gente ouvindo esse tipo de música em São Paulo. Foi uma expriência diferente pra mim.
GBN: O que vocês diriam que têm então de diferença entre o público brasileiro e do resto do mundo?

Claus: (...) Eu nunca tirei tanta foto e dei tantos autógrafos assim como nos últimos dias! (...) Quando entramos na cena da música alternativa, isso era apenas "nossa música". Só mais tarde que virou EBM, ou gótico, ou industrial, tanto faz. (...) Eu venho aqui 20 anos depois e tenho esse dejà vú, isso era o que eu mais gostava na cena! Sabe, na Alemanha tudo foi para outras direções... Aqui eu me senti em casa. (...) Eu acho que as lojas também representam a cena de alguma forma. Eu dei uma olhada rápida por 5 minutos no que tinha de vinil numa loja e achei uns discos do Kraftwerk com edições muito limitadas que são incrivelmente caras na Alemanha hoje em dia. E eu pensei "Uau! Como é que eles conseguem ter isso aqui?".
GBN: Falando em estilo, aqui em São Paulo, os seus fãs (do Serpents e do PNE) curtem mais o estilo Oldschool do EBM. Isso é comum entre os seus fãs pelo mundo?
Claus: Eu diria que é comum. (...) Não sei que tipo de banda somos, nem ligo pra isso, eu só faço música e quando gravo eu tento fazer o que eu gosto e sinto, sem pensar nas categorias. Depois se eu me encaixo em uma categoria eu não sei. (...) Esse seria meu desejo para as novas bandas, porque tenho a impressão de que eles tentam tanto se encaixar em determinadas categorias... Pessoalmente eu acho que esse não é o caminho. (...) Eu diria faça algo que você gosta, o que você sente hoje e o que sentir amanhã.
GBN: E pelo Serpents?
Kazim: Pra mim foi bem surpreendente ver as pessoas com LPs contendo músicas do Serpents que eu tinha até esquecido que tinha lançado! (risadas) Sim, foi muito interessante pra mim. Por exemplo, "Evil Minded" eu pensei "Como é que eles conhecem essa? Eu só lancei em fita e não em LP!" (risadas) Incrível! (...) E pra mim é quase a mesma coisa, eu faço a música que eu gosto e não o que as pessoas querem ouvir. Não precisamos disso, temos nossos empregos normais onde fazemos nosso dinheiro, não precisamos vender um monte de discos.
GBN: Vocês três criam música. Como acontece esse processo? Vocês concordam, discordam, brigam...?

Steffen: Nesse caso, cada um faz o seu, o que vem de si. Sempre começamos com um papel em branco e tentamos desenhar algo. Se você levar isso pra música, nós temos os sequencers, de onde surge uma melodia simples, daí você escuta e pensa "Isso é bom, acho que posso criar uma música completa daí." (...)
Claus: Eu acho que nós três temos uma situação especial. Temos nossos próprios projetos e escrevemos sozinhos, não temos uma banda. Eu não tenho que discutir com o baixista como deveria ser, eu não tenho que dizer ao guitarrista que talvez seja melhor de outro jeito. Porque eu estou sentado na frente do meu programa dizendo ao meu Cubase ou ao Logic [apontando para Steffen] o que fazer. (...)
Steffen: Eu sou uma banda completa! Eu tenho baterias nas costas, uns teclados na frente e toco flauta... e tenho uma porta USB aqui do lado! (risadas)
GBN: No show aqui no Brasil vocês apresentaram versões mais antigas das músicas, muito próximas de como elas foram feitas logo no início, quando tínhamos apenas hardwares para criar. Durante esses 20 anos de carreira, como foi para vocês mudar do hardware para software na criação de músicas?
Kazim: Para mim foi bem difícil porque eu usava sintetizadores e mudou para notebooks e softwares de sintetizadores. Foi ruim para mim porque eu não gostava do som. Eu fiz algumas músicas, as quais eu não gostei por muitos anos. Eu tive que esperar por novas versões de software e acho que hoje em dia ficou melhor. (...)
Claus: Teve diferenças, claro. Nos últimos dias conhecemos uns músicos de Brasília e eles perguntaram o que deveriam usar, porque tudo é tão caro... (...) Eu diria que hoje, com um computador em casa e uns softwares, você pode fazer muito mais por muito menos dinheiro.
GBN: ...Ou por dinheiro algum?
Claus: Sim... Mas não a gente, a gente trabalha na indústria musical.
Steffen: Nós pagamos pelos softwares. (...) Se você usa os softwares profissionalmente, ele se paga logo. Se você não usa tanto também não tem razão para usar cópias, porque como em qualquer outro hobby, se você usa muito vai acabar querendo pagar, já que passa tanto tempo nele. É natural.
GBN: Com a expriência que vocês têm na criação de músicas, gravação, lidar com gravadoras e tocar ao vivo, que conselho vocês podem dar aos novos músicos que estão começando agora aqui no Brasil?
Claus: Minha primeira recomendação é faça sua própria música e não copie. (...) Se você fizer uma cópia do Nitzer Ebb, eu preferiria comprar o álbum original deles, passaria reto por essa m***a. Não faz sentido! (...) Toque o que você acredita, as pessoas vão reconhecer isso e se for bom eles vão amar. Aí o sucesso vem, essa é a ordem das coisas pra mim.

Kazim: O que eu experienciei quando comecei com computadores é: não compre muito. Você está testando isso e aquilo e softwares... mas ainda não ainda chegou ao ponto desejado. (...) Então eu diria compre 1 software ou 2, e um ou outro aparelho, mas mantenha a coisa simples.
Steffen: Eu concordo, manter simples é bom. Muitas bandas têm pouco para investir e querem comprar mais, mas essa limitação pode ser a fonte da criatividade. O que só vão perceber mais tarde... Se você tem um certo set de sons que usa bastante, então já está num bom caminho. (...) Por exemplo, o Project Pitchfork fez vários álbuns com 1 ou 2 máquinas... e quando você ouve uma música deles que nunca ouviu antes você reconhece que é Pitchfork
GBN: Por falar em tempo e paciência, 20 anos é bastante tempo! O que podemos esperar do 20º aniversário do PNE no ano que vem? Uma turnê, um box, um DVD, o quê?
Kazim: Um bolo, talvez... (risadas)
Claus: Difícil dizer, porque no momento estamos ainda pensando no que fazer... Sim, faremos algo especial claro, mas por hora só temos um monte de idéias. Não dá pra dizer nada ainda, porque não temos nada pronto. Na verdade ainda não sabemos o que vamos fazer, mas nós queremos sim fazer algo.
GBN: Pelo menos o bolo!
Steffen: Ah, sim... um bolo limitado! (risadas) Um bolo oldschool...
GBN: Vocês acabam de lançar um novo álbum no dia do show em São Paulo, mas já tinham liberado algumas faixas dele no myspace. Como é pra vocês trabalhar junto com a internet e vender ao mesmo tempo? Que vocês acham dos MP3?
Claus: (...) Nós não somos radicais nesse ponto, se você realmente curte, dê um jeito de ouvir. Tenho duas posições sobre isso, uma é "não copiem nada porque assim as bandas não sobrevivem, gravadoras também não..." e isso é fato. Especialmente no underground. Agora, se você tem que escolher entre comer e comprar um CD, claro, larga disso e copie mesmo.
GBN: Considerando a longa carreira de vocês, por curiosidade, qual foi a coisa mais engraçada ou estranha que aconteceu? Vocês têm alguma história pra contar?
(risadas gerais)
Kazim: Eu acho que uma é sobre mim, mas ele vai contar...

Claus: Sim, eu me lembro de duas agora... Uma foi num festival enorme em que tocamos, tinha milhares de pessoas lá. Fomos em dois carros cheios de equipamento, eu cheguei 1 hora antes da passagem de som. Aí perguntei "Onde está o outro carro?" E me responderam: "Nós não sabemos!" Kazim e Steffen ficaram presos no trânsito. Aí o manager veio falar pra mim que estávamos com problemas porque era para passar o som naquela hora e eles não tinham chegado. Eu liguei pra eles e eles ainda estavam no trânsito, e eu falando que o manager estava na minha frente e que eles tinham que se apressar! E o tempo foi passando e foi ficando tarde... e de repente faltavam só 10 minutos para começar o show! E nada deles. Aí sim eu fiquei um pouco nervoso (risadas). Quando faltavam 5 minutos para entrarmos eles chegaram e, por sorte, se tratava de um evento gigante, então tinha umas 10 pessoas do staff esperando. Aí eles estacionaram o carro já no backstage e corremos para pôr o máximo de equipamento no palco e ligar tudo. No primeiro aparelho que entrou no palco eu pluguei e já dei o play na primeira música, e eles foram montando o resto enquanto isso. E, durante essa primeira faixa, quando eu corri pra frente do palco pra começar a cantar, Kazim falou "Está funcionando! Mas eu preciso trocar minha roupa!" e começou a trocar de calça, ali mesmo, no palco! Na frente das milhares de pessoas no público! (risadas). Qualquer um pensaria, "Beleza, vou tocar com essa roupa!" Mas ele resolveu que tinha que tocar com a calça de couro, então lá foi ele se trocar enquanto os caras ainda punham uns cabos!
Steffen: Ele ainda alegou que fez isso no palco porque não ia dar tempo de ir pra outro lugar se trocar (risadas)! É bem do feitio do Kazim mesmo.
Kazim: Estilo é importante! (risadas)
Claus: Bem, o outro fato foi quando fomos tocar em um festival na Bélgica, (...) a gente foi lá e fez a passagem de som por volta da uma da tarde, depois tivemos o resto do dia livre. Então a gente foi para o hotel fazer o check-in e sei lá... o lugar tinha uma atmosfera diferente, tudo muito pomposo. Chegamos no quarto e percebemos que a porta não fechava, não tinha nem tranca para chaves, nada!
Steffen: Não tinha chuveiro no quarto, tinha só uma banheira rosa e verde toda extravagante.
Claus: E tinha um cartão dizendo que podíamos ter champagne lá por uns 200 euros! E pensamos "Nossa, que caro, o que é isso?!" e tudo era muito diferente, nunca tínhamos visto um hotel assim. Depois, mais tarde, a gente tinha descansado e fomos sair e notamos que os outros quartos também estavam sempre abertos. E alguns estavam com a porta totalmente aberta e tinha gente lá dentro... transando!
Steffen: E a gente passando com um monte de equipamento!
Claus: Aí que percebemos que não era um hotel, era uma casa de swing! (risadas)
Steffen: A gente já achou que o cara que nos contratou pro show devia ser um cliente especial (risadas) e conseguiu um bom preço pra por a gente lá. As pessoas lá devem ter pensado "Nossa, que gente estranha de preto com um monte de equipamento e máquinas, que tipo de fetiche será esse?". Ok, transar com sintetizadores não é pra todo mundo! (risadas) Stephan Kalwa estava comigo no quarto e nós decidimos não tomar banho naquela banheira...

GBN: Vocês têm uma mensagem para mandar pros fãs brasileiros?
Claus: Especialmente para este show, estamos muito felizes e agradecidos ao Rodrigo e à Luciana [Projeto Ferro Velho] que fizeram um ótimo trabalho e foram muito especiais. Para as pessoas das outras bandas da Alemanha, eu diria que venham para o Brasil porque esta é uma experiência e tanto. Realmente aqui está um passo a frente, todo mundo anda junto e é tão amigável, é muito único.
Kazim: É, obrigado ao público que curte tanto esse som e é tão empolgado e caloroso. Muito obrigado!
Steffen: Nos sentimos como parte da família aqui, a gente quase esqueceu que tinha que fazer o show! (risadas)
Claus: Foi muito bom porque normalmente é como um emprego, a gente vai e toca e pronto. Aqui todo mundo foi tão gente fina que nem parece que estamos trabalhando. Eu queria agradecer a todos que estiveram com a gente, que curtiram o show, e dizer que isso aqui é único e adorei muito tudo. Grandes abraços!
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Grupo Bella Noite: Esta é sua primeira vinda ao Brasil. Agora, depois do show, todo mundo quer saber o que vocês acharam.
Claus: Eu tenho que dizer que foi definitivamente inacreditável. Eu diria que no Brasil é muito especial, as pessoas aqui são muito gentis, nós gostamos muito! Não posso comparar com outros países, mas eu recomendaria a outras bandas que, se tiverem a chance de vir aqui e ter essa expriência, venham porque é fantástico! Todo mundo é tão amável e te abraça (risadas), é tão legal. Na verdade, eu não sei como descrever, é muito especial.
Steffen: Eu fiquei bem surpreso por achar uma cena [alternativa] do outro lado do planeta, é incrível! Ter algo assim num ambiente totalmente diferente, é quente e tropical, outro modo de vida e condições de trabalho e vocês ouvem o mesmo tipo de som! Um mesmo grupo de pessoas com o mesmo estilo de roupas e de dança e, por outro lado, como disse o Claus, tão calorosas e nos fizeram sentir tão bem-vindos. Todo mundo é legal e fanático de uma forma positiva, você não consegue reisitir! E sobre o show, foi mesmo maravilhosa a resposta do público. Foi um tanto estressante no começo, para montar a parte técnica e pôr tudo pra funcionar, mas quando começamos a tocar, todo esse estresse se transformou em prazer. Mais pro fim do show nós estávamos mais relaxados e nos divertimos, ficamos com aquela energia forte, foi muito legal estar aqui e ser tratado tão bem.
Kazim: Não tenho o que adicionar a isso. Gostei muito e principalmente das pessoas, muito calorosas. O show foi ótimo, eu não esperava tanta gente ouvindo esse tipo de música em São Paulo. Foi uma expriência diferente pra mim.
GBN: O que vocês diriam que têm então de diferença entre o público brasileiro e do resto do mundo?

Claus: Claro que as pessoas aqui são super amigáveis e calorosas, mas não me entenda mal, nos outros países eles também o são. Eu nunca tirei tanta foto e dei tantos autógrafos assim como nos últimos dias! Mas especialmente sobre a cena por aqui, ao menos pra mim que sou tipo um “filho dos anos 80”, eu vivi muito o estilo New Wave, o New Romantic, bem antes de virar EBM ou todas essas categorias. Quando entramos na cena da música alternativa, isso era apenas “nossa música”. Só mais tarde que virou EBM, ou gótico, ou industrial, tanto faz. As pessoas foram encontrando nomes pros estilos, mas nós não diferenciamos tanto assim. O que eu sinto, e que é muito único, pelo menos pra mim como um filho dos anos 80, é que tudo o que eu amo acontece aqui agora! Em outros países as coisas foram pra outros lados. A música ficou mais dura, mais industrial, mais futurepop, não sei... E eu não estou nessa. Não sei nem o que quer dizer “Futurepop”! (risadas) Então somos bem fãs desse período, fim dos anos 70, começo dos 80, quando a Mute Records ficou bem famosa. Eu amava a cena das fitas K7, pessoas trocando fitas, era muito não-comercial. E eu tenho a sensação de que isso ainda acontece aqui hoje em dia. Então eu venho aqui 20 anos depois e tenho esse dejà vú, isso era o que eu mais gostava na cena! Sabe, na Alemanha tudo foi para outras direções... Aqui eu me senti em casa.
Steffen: Sim, como Claus disse, todos os outros públicos são ótimos e empolgados também. A gente tocou principalmente no Leste da Alemanha e na Bélgica nos últimos anos. Junto com isso, é interessante ver as pessoas aqui focadas nesse período específico, nos tempos antigos do Electro, dá pra ver pela Galeria [do Rock], em São Paulo, com tantas lojas especializadas em certos tipos de música. Na Alemanha você não acha mais isso. Você pode ir a grandes lojas como Saturn ou Media Markt onde você vai achar algo como “Clássico... Independente... e todos os outros estilos... Ok, Independente. Acho que vou dar uma olhada aqui...” Daí você acha algo chamado Eletrônico, onde tem umas bandas de hoje em dia e uma ou outra coisa mais antiga. E é isso! Ou você vai em lojas especializadas, mas não é tão bom como vimos aqui. Aqui não tem limitações, vocês têm o catálogo completo! Vocês têm discos que não encontramos mais!
GBN: Mesmo? Dos antigos?

Steffen: Sim! É muito interessante... Tá, eu não vi os meus CDs por aqui (risadas), mas acho que é porque não é o tipo de EBM que você gostam, mas mesmo pra quem curte essa linha pode achar o catálogo completo. E isso realmente diz muito isso, porque aqui é tão longe de onde eles foram feitos, significa que vocês realmente curtem. E isso também se reflete no público durante um show, dá pra sentir.
Claus: É verdade mesmo, porque eu acho que as lojas também representam a cena de alguma forma. Eu dei uma olhada rápida por 5 minutos no que tinha de vinil numa loja e achei uns discos do Kraftwerk com edições muito limitadas que são incrivelmente caras na Alemanha hoje em dia. E eu pensei "Uau! Como é que eles conseguem ter isso aqui?". E eu achei tantas coisas incríveis que não têm mais na Alemanha. É bem concentrado numa época que eu curto, fim dos anos 80, começo dos 90. Incrível o que vocês têm disponível. Claro que é bem caro, por ser importado, imagino que tem que ser caro.
GBN: Falando em estilo, aqui em São Paulo, os seus fãs (do Serpents e do PNE) curtem mais o estilo Oldschool do EBM. Isso é comum entre os seus fãs pelo mundo?
Claus: Eu diria que é comum. Quando tocamos na Bélgica, por exemplo, encontramos normalmente pessoas que conhecemos 20 anos atrás e é bem legal. Você tem a sensação de conhecer essas pessoas tão bem por termos nos visto tanto, mas eles sempre vêm nos ver, não importa quando. Eles meio que cresceram junto da gente, têm a nossa idade mais ou menos. Eu acho que o PNE não é uma banda para iniciantes na música eletrônica e industrial, esses devem ouvir coisas diferentes. Eu diria que o PNE ainda é uma banda de New Wave. Aquilo que hoje em dia se tornou um industrial e EBM, mais pesado e agressivo, eu não diria que é o que apresentamos. Se você olhar para tudo que fizemos, não foi só música para pista de dança, temos todo tipo de música, a gente simplesmente ia fazendo. Nosso foco era não ser um cópia do Nitzer Ebb ou qualquer outro. Fazemos aquilo que gostamos. Acho que todo mundo fez assim nessa época, no fim dos anos 80. Ninguém queria ficar copiando, as pessoas apenas criavam de acordo com a sensação de que aquilo as representa, que representa a “cena dark”... Todo mundo estava muito unido, o eletrônico, a guitarra, tudo isso... O que hoje em dia chamamos de gótico e EBM ou tanto faz, no começo não era separado assim. Eu diria que, de tudo o que fizemos, “Dream Destructor” e todas as músicas lentas não são EBM. Não tem nada a ver com Nitzer Ebb, mas fizemos coisas como “Kill the 6” que é mais pesado e dançável, aí as pessoas vieram dizendo que somos uma banda de EBM. Não sei que tipo de banda somos, nem ligo pra isso, eu só faço música e quando gravo eu tento fazer o que eu gosto e sinto, sem pensar nas categorias. Depois se eu me encaixo em uma categoria eu não sei. Esse seria meu desejo para as novas bandas, porque tenho a impresão de que eles tentam tanto se encaixar em determinadas categorias... Pessoalmente eu acho que esse não é o caminho. Eu diria faça algo que você gosta, o que você sente hoje e o que sentir amanhã. Eu tenho certeza que você não se sente da mesma forma hoje e amanhã e depois. Tem dias que você prefere dançar, dias que quer chorar e ser agressivo e gritar e no dia seguinte você gostaria de dizer “Não me sinto bem e não preciso disso hoje”, aí você faz uma música lenta. É uma mistura da sua personalidade e você é um músico, então você reflete sempre o que sente e o que pensa, como são seus amigos e família. É bem normal e não "Eu tenho que fazer um EBM de cair de quatro", isso não é o que eu entendo por música.
GBN: E pelo Serpents?

Kazim: Pra mim foi bem surpreendente ver as pessoas com LPs contendo músicas do Serpents que eu tinha até esquecido que tinha lançado! (risadas) Sim, foi muito interessante pra mim. Por exemplo, “Evil Minded” eu pensei "Como é que eles conhecem essa? Eu só lancei em fita e não em LP!" (risadas) Incrível! E pra mim é quase a mesma coisa, eu faço a música que eu gosto e não o que as pessoas querem ouvir. Não precisamos disso, temos nossos empregos normais onde fazemos nosso dinheiro, não precisamos vender um monte de discos.
Claus: Essa é uma grande diferença, eu acho. Eu diria que muitos músicos têm que soberviver de sua banda e quando você fica sério nesse tipo de negócio, chega um estágio em que você tem certos papéis a desempenhar. É preciso fazer alguns álbuns, e esse é o ponto onde se pensa qual é a música de hoje para as pessoas, ou o que um grande grupo de pessoas quer de você. Você tem que fazer vários shows, viajar bastante porque precisa fazer dinheiro. Pra gente não importa nada disso. Todos temos nossos empregos integrais e fazemos a música que temos vontade de fazer. Somos bem sortudos por estar na Alpha Matrix, que são pessoas que conheço há 20 anos, desde o começo. Eles que nos chamaram para tocar na Bélgica. São muito legais, são amigos pra mim. Não temos uma relação de trabalho, não me pressionam, eles dizem "Faça o que quiser, nós não ligamos. Me mande a gravação que nós lançamos!" Para um músico, essa é a melhor situação que você pode ter. Talvez o último lançamento não entre bem na cena ou no que as pessoas mais novas estão ouvindo, aí você tem pouca venda. Pra quem sobrevive disso é um problemão, mas não pra mim. Eu digo pra todo mundo, se você quiser compre, se não passe adiante.
GBN: Vocês têm curiosidade de saber o que as pessoas pensam do seu trabalho? O que os fãs pensam sobre as letras, a música...?
Claus: Eu acho que desde o começo quando começamos o PNE, todos os fãs estavam acostumados com bandas que nunca eram previsíveis. Eles sabiam que qualquer coisa poderia surgir. E eu gosto disso neles. Voltando à Bélgica, 20 anos atrás, eu acho que esses fãs antigos entendem isso porque eles têm o mesmo sentimento pela cena, temos as mesmas raízes. Se alguém realmente espera que eu vou regravar “Kill the 6” vinte vezes só com o nome diferente, isso não é PNE. As pessoas sabem que não somos limitados a isso. Veja bem, eu amo essa música, então não me leve a mal, eu gosto de fazer essa coisa de pancadaria, mas não sou limitado a isso. E acho que nossos fãs de verdade sabem disso. Aqui, antes do show, as pessoas pediram que eu tocasse todo tipo de música que fizemos, principalmente as mais lentas, como “One Way Order” e “Lie”, totalmente outra categoria. É isso que é o PNE. Sou o mesmo cara de 20 anos atrás e pra mim ainda lanço o que eu sinto e espero que as pessoas gostem, mas, é claro, eu gosto de saber sua opinião.
Steffen: Estou na mesma situação que o Claus na Alpha Matrix, com o Technoir. Também posso chegar com músicas e eles lançam, eles só perguntam se eu quero fazer a capa ou quero alguém que faça. São bem liberais e confiáveis, nunca fico desconfiado e sempre dá pra saber as coisas antes mesmo de perguntar pra eles, o que é bem incomum entre as gravadoras. Tivemos experiências anteriores bem diferentes... É importante pra mim fazer a música que eu gosto e ter a chance de lançá-la. Se não for o que a maioria quer, resulta em menos vendas e menores oportunidades de shows, mas não chega a me afetar, vou continuar fazendo da mesma forma. Eu ainda posso ir às baladas e ver o que está rolando na pista. Normalmente são músicas que elas conhecem faz tempo e novas músicas de determinada categoria. Tem muitas bandas por aí, muito populares, e eu decidi pra mim, como o Claus e o Kazim também, que não vamos seguir isso. Não estamos aqui hoje porque seguimos moda 20 anos atrás, mas porque fizemos algo que vocês reconhecem e que querem ouvir. É assim que funciona pra gente.
GBN: Vocês três criam música. Como acontece esse processo? Vocês concordam, discordam, brigam...?
Steffen: Nesse caso, cada um faz o seu, o que vem de si. Sempre começamos com um papel em branco e tentamos desenhar algo. Se você levar isso pra música, nós temos os sequencers, de onde surge uma melodia simples, daí você escuta e pensa "Isso é bom, acho que posso criar uma música completa daí." De onde quer que essa melodia, ou tom, ou sei lá o quê venha, pode ser coincidência ou talvez apenas a experiência de aprender a trabalhar com um instrumento novo, ou gravar algo, no fim das contas é com você... Eu acho que é assim que funciona a criação na cena eletrônica.

Claus: Eu acho que nós três temos uma situação especial. Temos nossos próprios projetos e escrevemos sozinhos, não temos uma banda. Eu não tenho que discutir com o baixista como deveria ser, eu não tenho que dizer ao guitarrista que talvez seja melhor de outro jeito. Porque eu estou sentado na frente do meu programa dizendo ao meu Cubase ou ao Logic [apontando para Steffen] o que fazer. Não tem discussão, eu sou o chefe, não recebo mensagens de erro do tipo "oh, eu não gosto disso", sabe? (risadas) Você trabalha de forma independente. E eu acho que até nas mais bem sucedidas bandas de rock clássico, tem só um compositor e o resto segue ele. Pra mim é o computador, ele só me acompanha. Sou eu quem escreve as letras, quem programa os sons e sequencers, faço tudo sozinho. Mas eu sei que para um show eu não posso ter controle de tudo isso, é impossível. Eu não quero pôr, tipo, uma fita e ir seguindo ela, um playback é chato pra todo mundo. E eu acho que não é isso que as pessoas querem ver quando pagam por um show. É claro que tem muitas seqüências e baterias eletrônicas e coisas computadorizadas rolando, que são bem normais pra música eletrônica, mas eu sempre quis dar um toque humano às apresentações, então desde o começo eu decidi fazer o máximo que podemos em tempo real, ao vivo. Eu sou muito feliz por ter o Steffen na banda, porque agora ele já está no PNE há mais de 10 anos e eu poderia dizer que ele é meu “live crew” [equipe ao vivo].
Steffen: Eu sou uma banda completa! Eu tenho baterias nas costas, uns teclados na frente e toco flauta... e tenho uma porta USB aqui do lado! (risadas)
Claus: Esse tipo de trabalho em equipe não tem nem muito o que explicar. Quando digo que vai ter um show semana que vem, como temos muita compatibilidade entre os sistemas, podemos trocar arquivos facilmente. E depois, porque trabalhamos há tanto tempo juntos, ele sempre tem algo preparado para todo show. Ele sabe exatamente o que fazer, quais os requisitos técnicos são necessários e então vamos juntos. Não é como uma banda de rock que você tem que convencer o guitarrista "Por favor, faça como eu quero!" Tudo se encaixa. Especialmente o Kazim, conheço ele há 20 anos e é a mesma coisa, ele já foi meu tecladista no palco, sempre quebra galho pra tudo (risadas). Amo ele por isso. Se preciso de um tecladista, lá está ele, se preciso de um engenheiro de som, lá está ele. Normalmente é isso que ele faz, porque quando você toca ao vivo, o melhor para uma banda é levar seu próprio engenheiro de som. Se for usar o engenheiro da casa, você nunca sabe se ele conhece sua música... que é o que geralmente não acontece! E se ele gosta de Reggae ou Heavy Metal, aí vem você com seus computadores, sequencers de áudio e outros aparatos, ele nao vai gostar de você. É bem normal isso, aí o som vai ser ruim porque ele vai tentar fazer sair um pouco de reggae e nao vai encaixar! (risadas) Não vai dar certo! Então você precisa levar o seu técnico, que é 50% do show - o cara na mesa de som. E eu gosto de ter o Kazim cuidando disso, porque quando ele está lá eu fico tranqüilo e sei que tudo vai funcionar. Ele é, no mínimo, 50% responsável pelo show do PNE. Não é só eu lá cantando e dançando, claro que o público me vê e reconhece o PNE em mim, mas o cara por trás das mesas é que dirige tudo.
GBN: No show aqui no Brasil vocês apresentaram versões mais antigas das músicas, muito próximas de como elas foram feitas logo no início, quando tínhamos apenas hardwares para criar. Durante esses 20 anos de carreira, como foi para vocês mudar do hardware para software na criação de músicas?
Kazim: Para mim foi bem difícil porque eu usava sintetizadores e mudou para notebooks e softwares de sintetizadores. Foi ruim para mim porque eu não gostava do som. Eu fiz algumas músicas, as quais eu não gostei por muitos anos. Eu tive que esperar por novas versões de software e acho que hoje em dia ficou melhor. Mas sim, eu ainda prefiro os hardwares do que usar só computadores.
Claus: Teve diferenças, claro. Nos últimos dias conhecemos uns músicos de Brasília e eles perguntaram o que deveriam usar, porque tudo é tão caro... Eu recomendo a todos que, se estiver muito caro, você pode fazer muito usando apenas softwares. São tão poderosos hoje em dia, se você cria usando seu Cubase ou seu Logic, você tem tudo o que precisa ali. Acho que comparado ao que nós experienciamos 20 anos atrás, dá pra fazer muito mais com menos dinheiro do que a gente teve oportunidade. Quando começamos o PNE tivemos que comprar tanto equipamento caro pra car***o, pra ter alguma coisa pra trabalhar... Até a menor mesa de som era caríssima. Meu primeiro sampling system além de caro tinha uma memória tão minúscula! Mas nós decidimos mandar tudo à m***a, ir ao banco pedir o maior empréstimo possível e comprar, porque acreditávamos na música. E foi bem suicída mesmo! Mas deu certo, logo tínhamos shows agendados e um contrato de gravação. Mas eu diria que hoje, com um computador em casa e uns softwares, você pode fazer muito mais por muito menos dinheiro.
GBN: ...ou por dinheiro algum?
Claus: Sim... mas não a gente, a gente trabalha na indústria musical.

Steffen: Nós pagamos pelos softwares.
Claus: É, nós pagamos pelos softwares. É nosso trabalho e não copiamos nada. Steffen e Kazim são programadores [de softwares musicais] e eu trabalho na indústria então sabemos como é caro desenvolver esse tipo de programa e se as pessoas copiarem vai acabar matando as empresas. Não faz sentido fazer isso. Mesmo o preço de um Logic ou de um Cubase não é nada comparado ao que tivemos que investir no começo e eu diria para as pessoas mandarem as cópias [piratas] à m***a e comprarem os softwares porque ele têm suporte e atualizações que você vai usar, vale a pena.
Steffen: Se você usa os softwares profissionalmente, ele se paga logo. Se você não usa tanto também não tem razão para usar cópias, porque como em qualquer outro hobby, se você usa muito vai acabar querendo pagar, já que passa tanto tempo nele. É natural.
Claus: E não é tão caro hoje em dia, acho que um bom software não é mais caro que um DVD player. Dá pra pagar. Mas eu acho que ainda existe uma diferença entre sintetizadores hardware e software porque, em alguns casos... o Serpents é um bom exemplo, que é baseado no Yamaha SY-99. Uma única nota nele tem esses synths especiais atrás que são uma combinação de geradores FM e WM e outras coisas. Não temos isso em softwares ainda! Tem algumas versões com algumas coisas que até imitam bem, mas logo você fica sem capacidade de processamento no computador... Ele precisa ser rápido o bastante pra rodar o programa, aí você investe num computador melhor e no final acaba ficando o preço do sintetizador em hardware! (risadas) Você tem mesmo que pensar bem, é claro que existem vantagens nos hardwares porque foram feitos para isso e têm camadas diferentes de sons e mecanismos perfeitos, mas se você realmente não tem grana, os softwares ainda podem fazer muito por você, por pouco dinheiro.
GBN: Com a expriência que vocês têm na criação de músicas, gravação, lidar com gravadoras e tocar ao vivo, que conselho vocês podem dar aos novos músicos que estão começando agora aqui no Brasil?
Claus: Minha primeira recomendação é faça sua própria música e não copie. Não faz sentido fazer uma cópia de algo feito 20 anos atrás. Se você fizer uma cópia do Nitzer Ebb, eu preferiria comprar o álbum original deles, passaria reto por essa m***a. Não faz sentido! Toque o que você acredita, as pessoas vão reconhecer isso e se for bom eles vão amar. Aí o sucesso vem, essa é a ordem das coisas pra mim. Essa é minha recomendação.
Kazim: O que eu experienciei quando comecei com computadores é: não compre muito. Você está testando isso e aquilo e softwares... mas ainda não ainda chegou ao ponto desejado. Então eu diria compre 1 software ou 2, e um ou outro aparelho, mas mantenha a coisa simples. Porque o que funcionava no passado ainda funciona hoje, no Serpents antigamente tínhamos apenas 2 instrumentos. Nós trabalhávamos com 3 no máximo. Eu acho que hoje em dia esse também é o ritmo.
Steffen: Eu concordo, manter simples é bom. Muitas bandas têm pouco para investir e querem comprar mais, mas essa limitação pode ser a fonte da criatividade. O que só vão perceber mais tarde... Se você tem um certo set de sons que usa bastante, então já está num bom caminho. Se você consegue fazer músicas dele então você tem uma assinatura perfeita e as pessoas vão reconhecê-la. Por exemplo, o Project Pitchfork fez vários álbuns com 1 ou 2 máquinas... e quando você ouve uma música deles que nunca ouviu antes você reconhece que é Pitchfork. E isso é importante. Outra diferença entre projetos que fazem e que não fazem sucesso é a capacidade de compeltar as coisas. Muita gente faz um monte de construções de músicas que nunca foram finalizadas apropriadamente. Eles dizem "Eu fiz isso, mas ainda não tenho certeza..." E fazem várias músicas incompletas porque não tiveram paciência nem de dar pra outra pessoa ouvir e ter uma segunda opinião, isso faz diferença. Se você completar o que faz e passar um certo tempo trabalhando nisso, não precisa ser muito tempo, mas faça com regularidade, você vai ver resultados.
GBN: Por falar em tempo e paciência, 20 anos é bastante tempo! O que podemos esperar do 20º aniversário do PNE no ano que vem? Uma turnê, um box, um DVD, o quê?
Kazim: Um bolo, talvez... (risadas)
Claus: Difícil dizer, porque no momento estamos ainda pensando no que fazer... Sim, faremos algo especial claro, mas por hora só temos um monte de idéias. Não dá pra dizer nada ainda, porque não temos nada pronto. Na verdade ainda não sabemos o que vamos fazer, mas nós queremos sim fazer algo.
GBN: Pelo menos o bolo!

Steffen: Ah, sim... um bolo limitado! (risadas) Um bolo oldschool...
Claus: Mas se alguém tiver qualquer idéia de algo que queira, sinta-se à vontade para pedir! Adoraríamos ter sugestões! Eu tenho um perfil novo no myspace, que tem 1 ou 2 semanas de vida agora. Tem muitas páginas do PNE ali, mas se você digitar “myspace.com/pneplasticnoiseexprience” [segue link abaixo], só essa é minha. Eu escrevi na página inicial que essa é a oficial do PNE. Sintam-se à vontade para mandar alguma mensagem, falar comigo, me adicionar, se alguém quiser dar idéias estaremos abertos.
GBN: Vocês acabam de lançar um novo álbum no dia do show em São Paulo, mas já tinham liberado algumas faixas dele no myspace. Como é pra vocês trabalhar junto com a internet e vender ao mesmo tempo? Que vocês acham dos MP3?
Claus: Existe uma diferença, porque a indústria dos MP3 tem uma linha oficial, você pode comprar faixas pelo iTunes por exemplo. É bom porque não importa onde você esteja, em que parte do mundo more, você pode comprar a faixa por um preço bem pequeno. Acho que é 1 euro por cada faixa... é bem barato! Mas claro que tem sempre quem copie tudo, acontece. Tenho duas posições sobre isso, uma é “não copiem nada porque assim as bandas não sobrevivem, gravadoras também não...” e isso é fato. No caso da minha gravadora, a Alfa Matrix, acho que é ainda pior porque as pessoas lá são tão legais e põe tanta energia no que fazem e conseguem lançar tanta coisa para manter o underground vivo... eles precisam de apoio! Então meu conselho à todos é que se estiver dentro de suas possibilidades e você curte uma banda, comprem a po**a do CD! Especialmente no underground. Agora, se você tem que escolher entre comer e comprar um CD, claro, larga disso e copie mesmo. Você tem prioridades, eu não ligo, eu entendo. Também porque eu não faço dinheiro daí, só quero que as pessoas gostem e ouçam minha música, mas infelizmente não posso dar a elas, oficialmente, de graça, nós trabalhamos na indústria da música e sabemos como funciona. É como vocês aqui, que têm um underground vivo. As gravadoras são parte disso e precisam de apoio.
Steffen: Acho que também tem a possibilidade de copiar as músicas e, se você gostar mesmo, ouvir bastante, aí você compra o CD original. Apesar de que, mesmo que todo mundo faça cópias, se os shows lotam a gente sabe que gostaram e, no nosso caso, funciona bem também.
Claus: Aqui em São Paulo conheci tanta gente que curte mesmo o PNE e são tão legais e tão fanáticos, eu acho que eles realmente comprariam o CD com gosto, sem questionar. Mas eu não sou o tipo de cara que iria ficar puto se você não comprasse meu CD por não ter a grana pra isso.
Steffen: Ei, eu fiquei puto uma vez! Teve uma pessoa que falou que conseguiu meu CD do Technoir e me escreveu pedindo as letras! (risadas) E eu disse "Se você tivesse comprado o meu CD você teria as letras!" E de qualquer jeito as letras estão na internet também, então... eu não entendi direito o cara! (risadas)
Claus: Nós não somos radicais nesse ponto, se você realmente curte, dê um jeito de ouvir. Mas eu preciso dizer que existem bandas que sobrevivem da música, e essa é uma história completamente diferente... Porque quem os sustenta é quem gosta deles, então eles precisam ter esse apoio.
GBN: Considerando a longa carreira de vocês, por curiosidade, qual foi a coisa mais engraçada ou estranha que aconteceu? Vocês têm alguma história pra contar?
(risadas gerais)

Kazim: Eu acho que uma é sobre mim, mas ele vai contar...
Claus: Sim, eu me lembro de duas agora... Uma foi num festival enorme em que tocamos, tinha milhares de pessoas lá. Fomos em dois carros cheios de equipamento, eu cheguei 1 hora antes da passagem de som. Aí perguntei "Onde está o outro carro?" E me responderam: "Nós não sabemos!" Kazim e Steffen ficaram presos no trânsito. Aí o manager veio falar pra mim que estávamos com problemas porque era para passar o som naquela hora e eles não tinham chegado. Eu liguei pra eles e eles ainda estavam no trânsito, e eu falando que o manager estava na minha frente e que eles tinham que se apressar! E o tempo foi passando e foi ficando tarde... e de repente faltavam só 10 minutos para começar o show! E nada deles. Aí sim eu fiquei um pouco nervoso (risadas). Quando faltavam 5 minutos para entrarmos eles chegaram e, por sorte, se tratava de um evento gigante, então tinha umas 10 pessoas do staff esperando. Aí eles estacionaram o carro já no backstage e corremos para pôr o máximo de equipamento no palco e ligar tudo. No primeiro aparelho que entrou no palco eu pluguei e já dei o play na primeira música, e eles foram montando o resto enquanto isso. E, durante essa primeira faixa, quando eu corri pra frente do palco pra começar a cantar, Kazim falou “Está funcionando! Mas eu preciso trocar minha roupa!” e começou a trocar de calça, ali mesmo, no palco! Na frente das milhares de pessoas no público! (risadas). Qualquer um pensaria, "Beleza, vou tocar com essa roupa!" Mas ele resolveu que tinha que tocar com a calça de couro, então lá foi ele se trocar enquanto os caras ainda punham uns cabos!
Steffen: Ele ainda alegou que fez isso no palco porque não ia dar tempo de ir pra outro lugar se trocar (risadas)! É bem do feitio do Kazim mesmo.
Kazim: Estilo é importante! (risadas)
Claus: Bem, o outro fato foi quando fomos tocar em um festival na Bélgica e, bom, o nosso contrato tem mais ou menos umas 20 páginas de baboseira burocrática, porque aprendemos bastante nesses vinte anos... Afinal, tem que ser uma coisa séria, se não tiver tudo assinado e algo der errado, a gente é que não tem como correr atrás. Um dos ítens do contrato é a garatia de um hotel para a gente pernoitar, sem especificações do local, mas tem que ter um hotel pra todo mundo... No caso, a gente foi lá e fez a passagem de som por volta da uma da tarde, porque seríamos os últimos a tocar, então fomos os primeiros a passar o som. Depois tivemos o resto do dia livre. Então a gente foi para o hotel fazer o check-in e sei lá... o lugar tinha uma atmosfera diferente, tudo muito pomposo. Chegamos no quarto e percebemos que a porta não fechava, não tinha nem tranca para chaves, nada!
Steffen: Não tinha chuveiro no quarto, tinha só uma banheira rosa e verde toda extravagante.
Claus: E tinha um cartão dizendo que podíamos ter champagne lá por uns 200 euros! E pensamos "Nossa, que caro, o que é isso?!" e tudo era muito diferente, nunca tínhamos visto um hotel assim. Depois, mais tarde, a gente tinha descansado e fomos sair e notamos que os outros quartos também estavam sempre abertos. E alguns estavam com a porta totalmente aberta e tinha gente lá dentro... transando!
Steffen: E a gente passando com um monte de equipamento!
Claus: Aí que percebemos que não era um hotel, era uma casa de swing! (risadas)
Steffen: A gente já achou que o cara que nos contratou pro show devia ser um cliente especial (risadas) e conseguiu um bom preço pra por a gente lá. As pessoas lá devem ter pensado "Nossa, que gente estranha de preto com um monte de equipamento e máquinas, que tipo de fetiche será esse?". Ok, transar com sintetizadores não é pra todo mundo! (risadas) Stephan Kalwa estava comigo no quarto e nós decidimos não tomar banho naquela banheira...
Claus: No fim das contas provavelmente foi um tipo de piada que aprontaram conosco, porque quando o show acabou já era de manhã e a casa estava vazia novamente e pudemos dormir.

GBN: Vocês têm uma mensagem para mandar pros fãs brasileiros?
Claus: Especialmente para este show, estamos muito felizes e agradecidos ao Rodrigo e à Luciana [Projeto Ferro Velho] que fizeram um ótimo trabalho e foram muito especiais. Para as pessoas das outras bandas da Alemanha, eu diria que venham para o Brasil porque esta é uma experiência e tanto. Realmente aqui está um passo a frente, todo mundo anda junto e é tão amigável, é muito único.
Kazim: É, obrigado ao público que curte tanto esse som e é tão empolgado e caloroso. Muito obrigado!
Steffen: Quero agradecer pela gentileza, a gente se sentiu super seguro e à vontade por aqui, nos divertimos muito. Fomos tratados tão bem no Inferno e no Hotel Cambridge, visitamos tantos lugares legais. Nos sentimos como parte da família aqui, a gente quase esqueceu que tinha que fazer o show! (risadas)
Claus: Foi muito bom porque normalmente é como um emprego, a gente vai e toca e pronto. Aqui todo mundo foi tão gente fina que nem parece que estamos trabalhando. Eu queria agradecer a todos que estiveram com a gente, que curtiram o show, e dizer que isso aqui é único e adorei muito tudo. Grandes abraços!