
Bandas Internacionais | Todos
Pouco antes do show em São Paulo, Peter Spilles e Dirk Scheuber nos concederam uma entrevista exclusiva. Eles ficaram bastante a vontade para dividir conosco histórias sobre momentos de sua carreira, opiniões pessoais e outros fatos interessantes sobre o Project Pitchfork. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

--
Grupo Bella Noite: Esta é primeira vez que o Pitchfork vem ao Brasil e América Latina. Como é, depois de 20 anos de carreira, estar em um continente e países onde nunca estiveram antes? Qual é a sensação?
Dirk: Quente! (risadas)
Peter: Estávamos muito empolgados para vir aqui, planejamos por um tempo, mas nunca funcionava. Agora estamos felizes que finalmente aconteceu.
GBN: Vocês já tinham ouvido alguma coisa sobre a cena dark/ebm/gótica no Brasil ou em outro país da América Latina?
Peter: Francamente, não.
Dirk: Conhecemos pessoas nas baladas da Europa que estiveram aqui.
Peter: É, mas sobre a música produzida aqui na América do Sul, ela não vem muito para a Europa.
GBN: O que vocês esperam do show de São Paulo?
Peter: Não temos expectativas para os shows porque simplesmente tentamos dar nosso melhor no palco, de verdade. Aí, vemos o que acontece, sem expectativas.
Dirk: Sim, mas se for como o show de Buenos Aires vai ser muito bom.
GBN: E como foi em Buenos Aires?
Dirk: Muito bom! Muito legal, o público estava bem entusiasmado.
GBN: Dizem que muitos artistas que vêm tocar no Brasil e na América Latina em geral gostam daqui porque as pessoas são muito intensas, ficam loucas e gritam, dançam, aplaudem e cantam junto. Vocês sentiram isso em Buenos Aires?
Peter: Sim, um pouco.
Dirk: Na verdade é difícil explicar porque, antes de começarmos o show lá, eles disseram para nós que muita gente estava louca querendo ver o show e muitos fanáticos pela banda, foi uma ótima surpresa. Sabe, isso já é coisa que não ouvimos tanto hoje em dia. Sim, se você compara com a Europa, tocar em outros países é bem diferente.
GBN: Então é sempre diferente?
Peter: Sim, mas eu não gosto muito de comparar tanto assim. É diferente em cada parte do mundo. Como a Europa tem lugares diferentes, cada público tem seu jeito de ficar empolgado num show. É importante fazer cada show por si e não compará-los.
GBN: Existe um lugar favorito onde vocês gostem de tocar ou um público favorito?
Peter: Não... Têm tantas cidades e lugares... e amamos tocar ao vivo!
GBN: Como vocês conseguem administrar tantas criações de álbuns, singles, lançamentos, DVD, shows e sua vida particular?
Peter: Tenho fases criativas. Quando me concentro na música é de manhã até a noite. E eu sou um compositor rápido.
GBN: Então você sempre tem tempo?
Peter: Sim, porque eu sou um músico em tempo integral.

GBN: O Project Pitchfork é normalmente classificado como electro-goth, ou industrial, ou ambos... Mas que estilo musical vocês acham que fazem, como vocês se classificam?
Dirk: Industrial-alternativo-rock...-EBM-eletrônico...-dance... (risadas)
Peter: ... é! (mais risadas)
GBN: É que por aqui as pessoas falam muito sobre isso, parece que é importante para elas conseguir classificar as bandas em estilos musicais.
Peter: O negócio é que o termo Industrial significa uma coisa nos Estados Unidos que não é igual na Europa, então fica difícil... No fim, a gente faz dark-eletrônico ["dark eletronic"], para deixar simples.
GBN: As suas influências mudaram do passado para os dias de hoje? O que influencia vocês na criação de músicas?
Peter: Influência é sempre aquela coisa, existem as influências que você sabe de onde vêm e as que você não sabe. Na verdade, somos influenciados até pela música de fundo, pelas coisas que ouvimos quando vamos a algum lugar. Agora, influências diretas e conscientes... vêm principalmente da cena gótica e, pra mim, de todos os tipos de música eletrônica desde o começo dos anos 70. Sempre fui fascinado pelos sons [das coisas] e eu tentava criar algo a mais, ter mais coisas para fazer música. Nessa época, eu achava que essa era a técnica de escrever música - se soa bem, é isso aí. Mas escrever músicas deve também ser mais uma combinação de composições entre melodias e sentimentos.
GBN: Vocês se envolvem ativamente na produção da imagem da banda, como capas de álbuns, singles, clipes e arte em geral? Como é feita a parte criativa deste material?
Peter: Nós fazemos. Também porque fizemos mudanças no início e eu estava dirigindo a produção de capas. Eu pedia "façam isso, façam aquilo" e mais tarde, com um amigo que curte Photoshop e essas coisas, eu sentava do lado dele e ia falando "faz isso, faz aquilo". Houve uma pequena fase em que tivemos um pessoal gráfico profissional que era muito caro e não tão bom e desde então eu faço quase tudo sozinho.
GBN: Então você curte fazer isso ou só faz porque tem que fazer?
Peter: Eu também curto, sim. Quando eu termino uma música, fica do jeito que eu quero, mas aí talvez a capa não fique tão bem como eu queria. Então prefiro fazer eu mesmo.
GBN: A carreira do Pitchfork foi ascendente, com cada vez mais sucesso. Em 2001 o sucesso atingiu um nível incrível com o lançamento Timekiller e Existence do álbum "Daimonion", além de clipes e shows lotados. Pra onde vocês querem levar o Pitchfork daqui para frente, onde vocês querem chegar?
Peter: Hmm... Um músico é um artista. Se comparado com um pintor, você pergunta: "onde um pintor iria?". Ele quer criar. Essa também é a minha, eu quero criar música! E de resto, sei lá... Nós atingimos tudo que podíamos atingir. No início dos anos 90 falamos com a MTV se tinha a possibilidade deles passarem um clipe nosso e eles disseram "Não! O seu tipo de música nós nunca tocaríamos". Anos depois nós chegamos neles com a ajuda da Warner, porque tudo o que sabíamos era que eles iam encaixar nossos clipes de qualquer jeito e isso abriu muitas portas, sem nos comprometer.
Dirk: Grandes gravadoras fazem clipes bons e eles te dão ordens, você TEM que cumprir.
Peter: Eles passaram nossos clipes na pirataria! (risadas). Sobre 2001, foi um pico de clipes muito bom. Embora seja música, parece que as pessoas não ouvem nada até assistirem alguma coisa. O que é uma pena, porque a MTV, por exemplo na Alemanha, só tem passado programas de reality shows e coisas do gênero, não tem mais música.
Dirk: Por que eles se intitulam Music Television? É assim aqui no Brasil também? [Nós concordamos] Antigamente eles passavam música, música, música e um pouco de outras coisas. Não faz sentido nenhum!
Peter: Acho que houve muitas mudanças também na internet. Muitos clipes são diferentes do formato clássico... como colagem de fotos. De qualquer forma, dá sempre muito trabalho fazer um video, eu sei porque eu fiz o DVD e todos os clipes também! Tomou dois anos da minha vida! Mas eu gosto demais de fazer clipes!

GBN: Suas letras são profundas, densas, cheias de significado. Essa é uma forma de se abrir e desabafar ou é mais como uma mensagem que você quer passar para quem ouve?
Peter: É mais uma combinação dos dois. Pensando agora, acho que eu quero dizer o que tem dentro das pessoas. Não é sempre tudo do meu passado ou da minha vida pessoal. Também gosto de me colocar fora de mim e olhar do ponto de vista de outra pessoa, dizer o que vi com meus olhos. Também tem letras que são mais pessoais. Algo importante para mim é que não seja música de fundo, do tipo que você ouve no rádio e canta junto "Lalala...", sem significado nenhum. Não quero irritar as pessoas, gosto de letras que são profundas, fazem você viajar e significam algo.
GBN: Que vocês acham das versões cover de suas músicas? Como vocês se sentem vendo uma música sua cantada ou remixada por outro músico?
Peter: Existem decepções totais (risadas) e outras que ficaram como eu achava que ia ficar. Ver a coisa feita por alguém do jeito dela, com uma música minha, é muito legal. É como a coisa do pintor de novo, pedir para um pintor repintar um quadro de outra pessoa. É o tipo de coisa que por mim tudo bem, mas na música eu acho idiota. É como um compositor clássico que estava recriando as composições de Mozart, é sem sentido.
GBN: Nós vimos que no Amphi Festival deste ano, na Alemanha, vocês fizeram uma aparição especial durante o show do And One, enquanto eles cantavam “Timekiller”. De onde veio a idéia?
Peter: Foi super espontâneo! Eu falei: Dirk, nós vamos pro palco agora! (risadas)
Dirk: É, ele chegou e falou: “É agora, vamos pro palco!” E eu falei: "Só se for agora!". (risadas) Foi um momento rápido.
Peter: Somos amigos do Steve [Nagavi, vocalista do And One], ele também mora em Hamburgo, e sabíamos que não ia ficar chato nem ia atrapalhar o show deles, o que podia acontecer era ser divertido.
Dirk: E foi logo depois do nosso show...
Peter: Soubemos que faz anos que ele canta Timekiller sempre, sempre, sempre... (risadas). As pessoas até perguntam se essa música é do And One e nós dizemos que é do Pitchfork, e eles retrucam que o próprio Steve disse que é do And One! (mais risadas).
GBN: Então você gosta da versão dele?
Peter: Sim, com certeza! Ele ia fazer o remix do original e então ele me ligou e perguntou: "Peter eu adoraria cantar essa música, posso cantar em cima da sua voz?" E eu disse: “Claro, pode cantar até sozinho!” E ele disse: "Obrigado!" - todo empolgado! (risadas). E ele fez o remix bem rápido, em versão cover, e ficou um bom remix!
GBN: A cena underground começou com várias bandas, junto com o Pitchfork. Como foi o começo de tudo isso na Alemanha para vocês?
Dirk: Sei lá...
Peter: Difícil! Nós vimos todas as possibilidades que você pode ver como músico. Tivemos que dormir no começo na casa de amigos, depois em albergues, hotéis podres, hotéis não tão podres... passamos por tudo ao longo dos anos. Sempre foi divertido! ... Sei lá, tem tanta coisa pra contar...
Dirk: Alguns até tinham camas ótimas, mas as circunstâncias eram péssimas...
Peter: Teve uma vez que tivemos que passar a noite numa espécie de “vila museu” (risadas). Não tinha água e o suposto banheiro era longe, tipo... no meio da floresta!
Dirk: O produtor disse que o hotel era seguindo a estrada, que tinha que virar aqui e ali, mas ninguém sabia de hotel nenhum, então seguimos até essa vila museu. Eu tinha deslocado o braço nesse dia, fui lá todo "Ai... ai...", nosso ex-manager estava vomitando o tempo todo... (risadas)
Peter: Agora, pela cena gótica em si, nós já freqüentávamos, nos vendo desde os 19 anos. E então, em um show em 89, ele [Dirk] chegou pra mim e disse "quero fazer música, por que não tentamos juntar alguma coisa?" Então, eu estava sempre contando com ele.
Dirk: É, mas seus amigos me disseram "não, não, não... ele faz tudo sozinho sempre!" (risadas). Eu só disse "tá bom, só tava perguntado!”
Peter: Então, aí estávamos formados e, sei lá, fomos crescendo junto com a cena, como outras bandas.

GBN: Pelo que vimos, o nome Project Pitchfork surgiu em um momento de casualidade, do tipo vocês abriram um livro e lá estava a palavra...
Dirk: Foi um dicionário, na verdade!
Peter: Porque nós pensamos em tantos nomes e só vinham idéias bestas. Então resolvemos dar uma chance ao destino. Pegamos um dicionário e corremos o dedo apontando as palavras sem olhar, duas vezes. Aí pegamos Pitchfork (“forquilha”). Pensamos, sim, os significados são legais... e também tem a ver com “o demônio”, enfim... Ok, precisávamos de uma palavra na frente. Então, é um projeto, para ficar claro que é algo aberto a novos estilos.
GBN: Em 2001 vocês lançaram Timekiller, que foi um dos maiores sucessos da banda. Vocês diriam que o sucesso que a música atingiu tem a ver com o teor da letra dela?
Peter: Eu não sei se Timekiller foi um sucesso tão grande assim, também teve Souls e Conjure e... (risadas) De qualquer forma...
GBN: É bom ter muitos sucessos, né?
Peter: Sim! (risadas). Eu tento me deixar levar e fazer letras que... É ruim falar disso, tem tantos aspectos que para você podem ser verdade e que não se refletem no que eu digo. Acho que ninguém gosta muito disso (risadas). No fim das contas, a música em si é um Timekiller [tradução: passatempo]. Porque às vezes sinto que as pessoas usam coisas filosóficas, que estão sempre lá nas nossas músicas, só pra abrir uma brecha no tempo, pra outra outra música, de outra banda, numa balada... Aí eles fazem o mesmo nessa música. Por exemplo, eu não gosto que Souls é tida pelas pessoas como uma música de amor. Para mim é mais uma música de amor pelos seres humanos, imaginando que se pode nascer de novo e de novo e de novo e talvez, sempre mesmo grupo. A idéia por trás disso é que pessoas, como nós agora, podem ter tido contato na vida passada ou em outras vidas passadas ou só uma vez... Essa música era sobre isso. Timekiller fala da frustração que é as pessoas terem a tendência de interpretar errado o que eles gostam ou não em um projeto meu. E também fala de mim no mesmo momento, dizendo "eu sou só seu passatempo". (risadas)
GBN: Vocês procuram em algum lugar para saber a opinião dos fãs sobre o seu trabalho? Por exemplo na internet, para saber sobre fãs de outros lugares do mundo?
Peter: Sim, é interessante, claro.
GBN: Isso influencia o que vocês criam?
Peter: Não.
Dirk: Claro que quando você tem letras assim existe significado, alguma coisa acontece dentro de quem ouve. Existe identificação com a letra. Fãs falam sobre isso.
Peter: É sempre melhor ouvir o que eles dizem ao vivo do que na internet, porque internet é uma plataforma de idiotas que não têm muito que dizer, então eles escrevem. (risadas)
Dirk: É, tem alguns.

GBN: Vocês fazem algum tipo de ritual ou têm alguma superstição antes de entrar no palco para fazer um show?
Peter: Sim, a gente bebe muito. (risadas)
Dirk: Uma vez tentamos meditação, mas não deu muito certo...
Peter: Não, funcionou sim, a gente fez, mas depois de um tempo: "não faz sentido isso, fala sério!".
Dirk: Bem, o processo é ficar no backstage meia hora antes, beber alguma coisa, fazendo piadas e nos arrumando.
Peter: Num show não há muito que ter sorte, sorte é não cair do palco.
GBN: Tem alguma mensagem que vocês gostariam de deixar aqui para a cena no Brasil, para o público e os organizadores de eventos da cena gótica e eletrônica?
Peter: Primeiramente, obrigado! É muito importante que vocês se juntem, se organizem e levem mais artistas daqui para a Europa. E, hmmm... Não sigam o dinheiro, sigam seu coração! Se bem que vocês provavelmente já fazem isso, ou não estariam na cena underground! (risadas)
--
Após esta agradável entrevista, fomos curtir o evento do Projeto Ferro Velho, onde a banda fez sua primeira apresentação no Brasil.
[Confira aqui nossa matéria sobre esta grande noite!]